sábado, 13 de dezembro de 2008

Afinal, cafeína vicia ou não?

O que a neuroanatomia, núcleo accumbens e o circuito de recompensa cerebral tem a ver com a cafeína e o vício?

Tem gente que não consegue começar o dia sem um cafezinho, daqueles bem carregados de cafeína. E aí, é vício ou não é? Segundo a equipe da francesa Astrid Nehlig, não.O maior argumento para considerar o hábito um vício é se o usuário fica dependente. De fato, quem é chegado num café busca a droga várias vezes ao dia. A cafeína tem ação estimulante, deixando o usuário mais desperto e concentrado. Some-se a isso o fato de a cafeína ser a droga psicoativa mais usada no mundo, encontrada no chá, chocolate, refrigerantes, além, é claro, do café, e logo fica claro porquê psicólogos comportamentais costumavam dizer que cafeína vicia, sim.Só que, ao contrário de drogas como a cocaína, quem consome cafeína costuma manter uma dose diária, ao invés de buscar cada vez mais quantidade da droga, e consegue abdicar a um cafezinho sem entrar em crise de abstinência. Vicia ou não vicia? Para chegar a um veredicto, os pesquisadores foram perguntar diretamente ao cérebro.Hoje já se sabe que as principais substâncias de abuso viciam através de sua ação no sistema motivacional do cérebro. Esse sistema inclui o núcleo accumbens, uma estrutura cerebral antiga que recompensa comportamentos importantes para a vida do indivíduo, fazendo com que ele volte a buscar o que proporcionou aquela sensação boa - de saciedade, realização, ou êxito. Drogas como a cocaína ativam esse núcleo, fazendo com que a pessoa volte a querer usá-las. Mas também deixam o núcleo acostumado, como que "anestesiado", de modo que da próxima vez é necessário usar uma dose maior da droga para atingir o mesmo efeito. Daí a bola de neve que é o vício.A grande pergunta, então, era se a cafeína também ativa o núcleo accumbens. Astrid e seus colaboradores deram cafeína a ratos de laboratório, e em seguida usaram a técnica de tomografia por emissão de pósitrons para determinar se o consumo de glicose no núcleo accumbens dos bichinhos aumentaria, indicando sua ativação.Mas não aumentou. A cafeína ativa regiões do cérebro envolvidas com a locomoção e o estado de alerta, batendo com as mudanças no comportamento dos animais. Mas o núcleo accumbens continua calminho - a não ser com uma dose cavalar de cafeína, o equivalente a tomar sete xícaras das boas de café de um gole só.Astrid também teve a oportunidade de estudar um voluntário, usando a mesma técnica. E confirmou que a atividade no núcleo accumbens não mudou, mesmo depois do equivalente a três xícaras de café.Se não mexe nos botões de recompensa do cérebro, por que a cafeína mantém seu público cativo? Astrid sugere que os usuários gostam da sensação agradável de ficarem mais alertas e concentrados. Existe também, é claro, uma questão de hábito, mesmo - como o hábito de comer pão com manteiga pela manhã. Claro que ninguém pensa em sugerir que pão com manteiga vicia... bom, quase ninguém.Quem fica contente com a notícia são os fabricantes de refrigerantes, há muito tempo acusados de adicionar cafeína desnecessariamente para aumentar o nível de vendas. Um outro estudo publicado em 2000 indica que a cafeína não melhora o sabor do refrigerante, como alguns fabricantes alegam. De 55 voluntários, apenas 2 sentiam uma diferença no gosto do refrigerante quando cafeína era adicionada.E pior: colocando mais cafeína no refrigerante, os voluntários torciam o nariz, reclamando que a bebida tinha gosto de remédio.Verdade seja dita, a cafeína não é o único atrativo dos refrigerantes. Tem também a sensação de pequenas espetadelas na língua, resultado da reação do gás carbônico do refrigerante com um componente da saliva, liberando ácido carbônico. Esse ácido, e não o gás diretamente, interage com os receptores de dor da língua (sim, de dor!), dando no cérebro aquela sensação "agradavelmente irritante" que continua mesmo depois da bebida passar.Mas por que tanta agitação por causa da cafeína no refrigerante? Porque cafeína e refrigerantes nem sempre fazem bem. Primeiro porque em algumas pessoas a cafeína provoca reações indesejáveis de mal-estar, ansiedade, tremores, aumento da pressão arterial, palpitações e insônia. E segundo porque os nutricionistas ficam horrorizados com o volume de refrigerante consumido anualmente. Só nos EUA são 67.000.000.000 de litros por ano - ou uma média de 585 latinhas por pessoa por ano, crianças e bebês inclusive. Ou seja: em torno de 60 mil calorias absolutamente não-nutritivas para cada um.Testa-se a cafeína, testam-se as bolhinhas de gás, contam-se as calorias, mede-se até o núcleo accumbens. E fica faltando medir o efeito da propaganda sobre o cérebro. Deve ser danado, porque às vezes só de ver aquele cartaz a gente "lembra" que está com uma vontade... falando nisso, deixa eu dar uma chegadinha ali na cozinha...
Fontes: Chemists mix it up in California (1999). Science 284, 243-244.CT Simons et al (1999). Neurobiological and psychophysical mechanisms underlying the oral sensation produced by carbonated water. Journal of Neuroscience 19, 8134-8144.RR Griffiths & EM Vernotica (2000). Is caffeine a flavoring agent in cola soft drinks? Archives of Family Medicine, 9.

Um comentário:

Karen Machado disse...

Em suma; estou feliz que não sou viciada em café :)

kkkkkkkkk
;*